Com toda licença, visando matar a saudade de falar sobre livros nesse blog, trago uma singela resenha de um dos melhores livros que tive o prazer der ler em 2025. Por muitos meses ele ficou acumulando poeira na prateleira, mas quando o momento dele chegou, foi simplesmente maravilhoso.
Narrado em primeira pessoa, o cenário da história é a cidade de Cáli, na Colômbia. Sob os olhos de Cláudia, uma menina perspicaz que tenta entender o mundo dos adultos, principalmente de seus pais, vamos acompanhando a rotina da família em um apartamento tomado por plantas e precipícios sentimentais.
Presenciando uma crise familiar e sentindo os abalos no casamento dos pais, pouco a pouco a menina percebe a efemeridade da vida cotidiana. Sua mãe, é obcecada por revistas de celebridades, principalmente por figuras femininas que tiveram fins trágicos, e conforme os acontecimentos da história ocorrem, percebemos o quanto Cláudia além de observar com curiosidade e inquietação, é afetada pelo silêncio, segredos e dores que ainda não consegue nomear. Em sua pouca idade, ela observa com atenção as palavras de sua mãe a respeito dessas mulheres e começa a fazer ligações sobre a morte delas e as emoções da progenitora.
Para além de uma história "sobre infância", Pilar Quintana nos joga no abismo da tensão familiar e apresenta a solidão e dores não ditas das mulheres de diferentes gerações. No decorrer da leitura, você pode se sentir tentada a acreditar que a solidão maior será da mãe, mas na verdade, é da filha que a tudo observa em um silêncio gritante.
Os jardins, florestas e precipícios não compõe apenas o cenário da história, mas são reflexo do abismo emocional de cada um dos personagens - que por toda a leitura não os nomeiam, como se não soubessem lidar de maneira apropriada com o que estão sentindo.
A escrita da autora é leve ao ponto de fazer o leitor não sentir o tempo passar e ficar envolvido com a trama, mas de leve essa história nada tem. A tensão é construída com sutileza, sem clímax direto, nos levando a refletir sobre os impactos das relações familiares e formação de identidade.
Fechei suas páginas levemente desgraçada da cabeça, pensando a respeito das emoções que a história nos desperta e comove. Confesso que minha frustração maior foi pela pequena Cláudia, que apenas por ser criança, não era ouvida. Mas talvez seja apenas isso que a autora quis transmitir: desconforto e reflexão.
Título original: Los Abismos
Autora: Pilar Quintana
Editora: Intrínseca (essa minha edição é do clube intrínsecos)
Páginas: 272

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Nossa, Karina, que fortes essas citações que você destacou, menina... Fiquei impactada aqui, sério mesmo... Acho importante essa discussão da solidão feminina e de como, muitas vezes, isso acaba sendo quase geracional. Que livro fascinante, obrigada por indicar!
ResponderExcluirTem muitas cenas impactantes nessa leitura. Espero que você goste dela tanto quanto eu. Beijo enorme ❤
ExcluirNossa, que resenha maravilhosa! Me deu até um aperto no peito ler sua descrição sobre o "silêncio gritante" da Cláudia. É doido como livros que ficam pegando poeira na estante por meses parecem que escolhem a hora certa de serem lidos, né?
ResponderExcluirEngraçado que você mencionou terminar "levemente desgraçada da cabeça" — acho que é o maior elogio que se pode fazer a um livro da Pilar Quintana. Ela tem esse dom de ser sutil enquanto empurra a gente pro abismo junto com os personagens. Fiquei bem curioso para notar esse contraste entre o apartamento cheio de plantas e o vazio emocional dos pais.
Dica anotada (e já devidamente temida)! Parabéns pelo texto, deu para sentir daqui o quanto a leitura te balançou.
www.postliteral.com.br
Muito obrigada! Espero que goste da leitura, Vitor ❤
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