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não consigo ser uma amiga de baixa manutenção

Quando criança, funcionava muito bem sozinha. Apesar de gostar das minhas amiguinhas, preferia muito mais o meu silêncio, ir para o quintal e ficar com as galinhas, e das minhas brincadeiras sem ninguém atazanando meu juízo. Porém, com o passar do tempo, comecei a pedir por uma irmã.

No meu pequeno cérebro esperto para muitas coisas, mas para outras nem tanto, imaginei que quando eu tivesse 12 anos, minha irmã teria 10 e me compreenderia. Foi no auge dos meus sete anos que meus pais explicaram como a matemática do nascimento funcionava e meu mundo caiu. Mesmo assim, amei minha irmã no momento em que meus olhos bateram nela.

Mas aí vem a história ruim... os nossos nove anos de diferença começaram a interferir no relacionamento. Enquanto ela queria uma irmã para brincar, eu a afastava da minha vida. O grude me incomodava, as mexidas nas minhas coisas me irritavam e eu queria saber apenas das minhas amigas.

O resultado disso foi um abismo sendo criado entre nós duas. 

Como minha mãe sempre foi (e sempre será) minha melhor amiga, ela me aconselhava muito sobre cuidar melhor dessa relação. Ela, que foi filha única, sempre sentiu falta dessa companhia e era uma pessoa muito carinhosa, portanto, queria que tivéssemos uma relação saudável. Demorei muito tempo para que isso entrasse na minha cabeça.

Adolescente às vezes é uma peste, né menina?

Foi só com os dois meses de ausência e um oceano de distância entre nós, que minha ficha de fato caiu. Minha irmã sairia da adolescência em alguns anos e se as coisas continuassem andando da forma que estavam, nem tão cedo eu conseguiria melhorar nossa relação. Não lembro como foi, só foi. Ela diz que comecei a enxergá-la como gente kkkk kiódio. O fato é que de nós duas, ela sempre foi a melhor, a que perdoa com mais facilidade, a que é mais carinhosa e a que mais desejava que eu expressasse amor.

Atualmente, nós somos irmãs-melhores amigas. Temos conversas bobas, mas muitas conversas difíceis (e em muitos momentos acho que não deveria falar tanto já que a diva é psicóloga – pra uns isso seria ótimo, mas tem momentos que as falas não são de irmã, sabe? #socorro). Saímos juntas, dividimos nossas coisinhas, temos brigas idiotas, agradamos uma a outra e investimos em ter uma relação saudável porquê já vivemos a fase ruim.

E apesar de não ter sido essa boa irmã nos primeiros anos da vida dela, eu era uma ótima amiga para minhas amigas. Incoerente, né? Pois bem. O que eu não investia com quem tanto pedi aos meus pais, investia nos fora de casa. E advinha? Só levei na cara. Eu fui traída, abandonada e ferida de tantas formas por pessoas que eu amava e investia minha energia, que desenvolvi uma certa dificuldade de confiar e me abrir (e olha que mesmo antes disso eu já não era tão fácil). Passei a ficar filtrando os relacionamentos por causa das incontáveis vezes que fui punida com silêncio e chorei no colo da minha mãe. 

E talvez seja por esses dois fatores que não consigo ser uma amiga de baixa manutenção. 

Me tornei uma ótima amiga porquê um dia fui uma péssima irmã e aprendi a ser melhor. Hoje, tenho muito orgulho da pessoa que sou e sei que, apesar das dores, não vou desistir de me empenhar, de querer cultivar novas amizades – mesmo que na vida adulta isso seja mais trabalhoso.

As interações na internet não suprem minha necessidade em uma amizade, principalmente por acreditar que essa relação precisa de esforço tal qual um casamento. Conversas a cada três meses apenas via WhatsApp, um "vamos marcar" que nunca é marcado, um esbarrão na igreja seguido de "oi tudo bem", reels trocados, comentários em publicações, não são suficientes pra mim.  Não quero ninguém me mandando mensagens todos os dias, não é sobre isso (embora não me incomode), mas sim sobre o desejo de cultivar o relacionamento ao longo do tempo, de superar as fases ruins, ter conversas difíceis, entender as mudanças de vida.

É claro que compreendo que algumas amizades simplesmente vão morrer. Não estou pontuando as que claramente estão fadadas ao fracasso, forçar quando um não quer ou se manter agarrado em uma amizade tóxica, mas sim aquelas que evaporam apenas pela falta de interesse de uma (ou ambas) das partes ou de achar que meus exemplos acima são suficiente. 

Só o virtual não sustenta.

A verdade é que nós precisamos de contato, precisamos de olho no olho, gargalhar juntos até cair para trás, dar um abraço apertado enquanto lágrimas escorrem dos olhos. Mas viver nessa sociedade cada vez mais fria e distante tem sido difícil demais para essa que vos escreve. A tecnologia, ao mesmo tempo que nos aproxima, nos afasta. 

E nós estamos permitindo que ela nos distancie mais e mais de forma muito passiva, na minha opinião.

Enfimmm, talvez eu não chegue à conclusão alguma aqui, penso muito sobre esse discurso da baixa manutenção desde 2024. Talvez essas muitas palavras sejam apenas um desabafo de alguém que aprendeu com os próprios erros e ainda sofre com os traumas. No final das contas, sei que para mim, a melhor amizade é aquela que é como um ferro afiando ferro.

Esse post foi inspirado no Adulta funcional de baixa manutenção do blog Limonada. Ele é também parte da missão da semana (Eco das Histórias) do BEDA organizado pelo Entreblogs e, de nenhuma forma, é uma resposta às opiniões da Tatiane. Os relatos dela me inspiraram a escrever o meu.

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gavinhas

Em culturas como uva e maracujá, gavinhas ajudam na condução da planta, mas podem ser removidas na poda para economizar energizando planta. As gavinhas crescem em linha reta até encontrarem um suporte, momento em que começam a se enrolar. Elas agem como gancho para o crescimento vertical, permitindo que a planta se firme em estruturas como cercas ou tutores.

Anotação encontrada no Diário de Elmer, guardado na seção de "Botânica", Prateleira J, 10º andar, Corredor 2 da Biblioteca Eterna.

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escrevo sobre coisas tristes


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No final de semana que passou, tivemos nosso retorno da aula de Laboratório. Aos que estão perdidos nesse rolê, eu faço pós-graduação em Escrita Criativa e nessa "disciplina" nós praticamos a escrita, além de apresentarmos nossos livros. Nas férias, o professor deixou uma simples atividade: escrever um conto de até três páginas sobre um personagem do nosso livro ou algo ambientado nesse universo.

Depois de muito pensar, porque estou levemente travada na história, resolvi que voltaria dez anos no tempo para contar os bastidores do "trauma" de Pedro, um garotinho que aparecerá para tirar o juízo da minha personagem principal. O papel dele não é grande, mas também não é pequeno, pois Pedro é um garoto curioso e fica muito intrigado com a chegada de sua nova vizinha.

Meu objetivo foi contar a história de seu passado porque preciso explicar – no livro – os motivos dele ser da forma que é e viver do jeito que vive, mas não quero abordar isso com profundidade. Expliquei em sala por qual razão fiz o conto, recebi feedback de uma colega que é advogada e pontuou a questão jurídica do caso e recebi uma dica valiosíssima do meu professor para não esquentar tanto a cabeça com o assunto – já que Pedro não é o personagem central.

Dei esse rodeio todo porque quero deixá-los curiosos sobre meu livro.

Enfimmm... No meio da minha explicação, disse que estava com um pouco de dúvida sobre esse passado porque o livro já tem um peso dramático e uma tristeza muito grande. Não quero transformá-lo em um melodrama, mas eu só sei escrever sobre tristeza. Fico me perguntando: CADÊ A FELICIDADE? Mas ela simplesmente não vem.

O professor até pontuou que essa pode ser uma das minhas características, então nesses dois dias tenho refletido sobre o quanto escrevo a respeito de coisas tristes.

Talvez isso venha do fato de que a melancolia é muito mais confortável para mim do que a felicidade. É difícil me expressar em contentamento e muito mais fácil na tristeza, além disso, tenho essa personalidade de ser mais introspectiva, silenciosa e reflexiva. Passar muito tempo na minha cabeça me preparando constantemente para o pior tem esse efeito. 

Sempre fui assim, mas após o falecimento de minha mãe, tudo se intensificou. Já gostava dos textos que me faziam chorar e refletir, hoje em dia, os amo e me identifico com mais facilidade. Até posso contar e viver coisas alegres, mas meu estado "natural" é mais quieto, abatido até... E, honestamente, isso não combina nadica de nada com minha religião. Não que devemos ser sempre felizes, pois, no mundo tereis aflição, mas é que esqueço com frequência do tende bom ânimo e da alegria que encontramos em Deus.

E também não é que eu viva sempre triste, é só que consigo enxergar beleza nos sentimentos feios e entristecidos. É confortável falar do desagradável, das feridas, dos traumas – na mesma proporção em que falo de coisas boas e contentes!

Pedro terá esse passado doloroso assim como minha protagonista. O truque que devo utilizar é não pesar a mão demais, pois o final – que está parcialmente escrito – tem o respiro que a personagem que ainda não terá seu nome revelado, eu e o leitor precisamos e desejamos. Apesar da história começar com lágrimas, ela termina com esperança, afinal, é o que nós seres humanos precisamos todos os dias: esperança para continuar e viver!

Observei que na balança tristeza-felicidade, meus textos pendem mais para a palavra à esquerda. E tá tudo bem, sabe? No fim, eu escrevo sobre coisas tristes, mas de um jeito bonito! Isso não significa que todas minhas histórias serão dessa forma.

Mal vejo a hora de contar para vocês mais detalhes sobre meu livro.

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