QUASE AURORA

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desperte, pequena guardiã

Respirando fundo, observei o caminho que estava deixando para trás. Parada, olhando os objetos abandonados no território do Ladrão de Memórias, senti meus pés cansados e as mãos pesadas, como se tivessem segurado uma espada durante horas de batalha. Mas eu não havia lutado contra ele corpo a corpo. A guerra era na mente e, por isso, meu corpo já não suportava mais e meus pensamentos se sobrecarregavam de incertezas.

Sentei-me no chão com os olhos cansados por ficarem abertos por tanto tempo. Eu queria permanecer ali, desistir de tudo e me entregar abandonando o Antigo Ritual. Ninguém poderia me culpar, afinal, nem todos nascem para serem heróis e eu

Salvar Sgolbertne, no início da campanha, parecia uma tarefa fácil demais. A Guilda se empolgava com os desafios, passavam o Grimório de mãos em mãos e durante estes dias de jornada, nos encontrávamos em tavernas para cantar canções, contar histórias épicas ao redor de fogueiras, comemorávamos as derrotas dos vilões e dividíamos o fardo para renovar o vigor.

Porém, mesmo isso não me bastou.

E ainda que minhas palavras enquanto Barda encantasse os viajantes, pouco a pouco sentia meus poderes ruindo, sem efeito algum sobre mim. Quando adentrei no território do Ladrão, senti uma âncora em minha mente. E é por isso que estou aqui, tão perto, mas ao mesmo tempo tão longe, admirando o brilho das luzes do Reino. Consigo sentir o cheiro das especiarias vendidas nas barracas de rua, o som das risadas e dos aplausos do teatro e sinto em minhas mãos a textura dos livros da Biblioteca Eterna.

O cansaço me faz querer desistir, consequentemente, fecho meus olhos e mergulho no sono profundo. A escuridão me abraça como uma cama quente e confortável. Começo a flutuar como se estivesse em uma valsa e sorrio com a sensação de felicidade que toma conta de todo meu ser. É então que estrelas explodem ao meu redor e uma pequena luz começa a vir em minha direção.

imagem feita pelo meu amigo Chat GPT

Ela aumenta cada vez mais e uma fina camada de poeira cósmica dança ao seu redor. No centro, há um ser que não consigo definir se é homem ou mulher. Não consigo analisar sua forma por completo, muito menos seu rosto. Ele se faz e refaz constantemente. Quando fala, sua voz é como uma multidão de vozes e, mesmo confusa de início, consigo compreender suas palavras:

— Quer desistir, pequena Guardiã? Para onde você realmente irá se não continuar a jornada? Este não é o seu lar e sua missão ainda não está completa. Faltam poucos passos, portanto, levante-se. Bata a poeira das roupas e siga adiante. Não permita que o ladrão roube suas memórias, muito menos seu futuro.

Eu queria perguntar quem ou o que era aquele ser, como conhecia minha jornada e meu desejo de desistir, mas antes que pudesse perguntar, ele ou ela, riu e foi uma risada que provocou cócegas em mim.

— Ora, pequena Guardiã. Você, detentora das chaves da Biblioteca Eterna, deveria muito bem saber quem sou. Afinal, estou em tudo e em todo lugar. Sou o que sou. Agora já não há mais tempo a perder. Desperte!

As estrelas brilharam intensamente me deixando cega por alguns segundos. A gravidade me puxou para o chão e não tive tempo de ter medo, em segundos já estava de volta ao meu corpo, de volta ao mundo real. 

Ao abrir meu olhos, sentia-me renovada. Levantei do chão fazendo exatamente o que o Ser havia mandado. Sacudi a poeira das roupas, coloquei minha bolsa e olhei para o Norte, respirando fundo a brisa que vinha de lá e me levaria de volta para o Reino, para minha Biblioteca. A primeira luz da manhã tomava conta do céu, era um quadro bonito para se admirar e inspirada por aquela luz, decidi que iria completar minha jornada.

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eu, o barulho e os gatos

eu, meu silêncio e três gatos

O ano era 2022 e estava vivendo os primeiros meses após a perda de minha mãe. Ainda estava processando muitas coisas e entendendo a dimensão do que é perder alguém que você tanto ama e imagina que terá para o resto da vida. Na época, meu pai e irmã foram visitar nossa família paterna em Minas Gerais e me restou ficar em casa para cuidar dos gatos.

A solidão não foi um problema, afinal, sempre gostei de permanecer quieta no meu canto e precisava daqueles dias sem o cotidiano barulho de uma casa com pessoas. Eu e os gatos entramos em um ritmo tranquilo, era uma nova rotina para as refeições deles e uma cama espaçosa para dormirmos — sempre gostei de dormir no quarto dos meus pais quando eles se ausentavam.

Olhando para aquele passado, percebo que me ajudou muito a assimilar tudo que estava dentro de mim e foi naquela rotina silenciosa que me deparei com uma das maiores e mais difíceis perguntas do luto: o que eu faço com todo o amor que tenho e depositava naquela pessoa? 

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Nós amamos muitas pessoas, mas não somos preparados para perdê-las, pois é uma possibilidade quase inexistente. Então, quando aquilo deixa de existir, esse amor que investíamos dia após dia, depositávamos nossa energia, nosso tempo, cuidado e carinho, fica perdido... E não adianta tentar redirecioná-lo para outro lugar. Será como uma peça de um quebra-cabeça tentando se encaixar em outro jogo, simplesmente não funciona.

Na época, quando levantei esse questionamento, não encontrei respostas e ainda não as tenho. Em muitos momentos me sinto vagando por um labirinto, tentando encontrar a saída que me levará a porta da salvação, mas confesso que não acho que exista tal porta. Continuo amando minha mãe de maneira extrema! Mas por não tê-la mais em corpo físico, em presença física, não sei o que fazer com todo o sentimento.

E para além disso, de lá pra cá, vim numa sequência de perdas. Dois anos após o falecimento de mãe, perdi a Chanel, minha primeira gata e que foi meu suporte psicológico durante o luto. Ainda lembro como se fosse ontem, de quando três dias depois que mãe faleceu, enquanto eu chorava dolorosamente para todos os vizinhos ouvirem e ninguém conseguia me socorrer, ela subiu na cama, agarrou minha mão e ficou lambendo até que eu me acalmasse. Quando parei de gritar, ela deitou a cabeça na minha mão e ficou ali até que eu pegasse no sono. É uma das lembranças mais bonitas e importantes que tenho.

E perder a Chanel foi muito difícil, pois ela faleceu em circunstâncias de saúde extremamente similares de mãe. Nas duas perdas, eu estava com elas vendo a vida deixar seus olhos. E isso deixou marcas profundas em mim, não tenho como fingir que a morte não roubou algo bonito e puro do meu ser.

Agora, estou perdendo a casa. Uma das poucas coisas físicas que veio dela. Apesar de já ter assinado os contratos de venda/compra, ainda estamos aqui há alguns meses e nesse período não consegui preparar meu psicológico para quando realmente tivermos que empacotar nossas coisas. 

Esse apartamento sempre foi o sonho da minha mãe e por dez anos ela o usufruiu da melhor forma possível. Aproveitou o privilégio de morar de frente para o mar, de ver o sol nascer na varanda, de receber amigos, comemorar aniversários, ver a Chanel ganhar sua última ninhada antes da castração, dançou na virada de ano pela sala com meu pai, fez inúmeras receitas que foram passadas pela geração anterior, chorou olhando fotos antigas, brigou comigo e com minha irmã, deu inúmeras risadas.

E eu estou agarrada a essas memórias, vivendo um luto esticado.

Sei que minha mãe não está nas coisas materiais, mas naquilo que traça, ferrugem e maresia não podem corroer. Ela está nas minhas memórias, nas histórias, nas postagens desse blog, nas fotografias, no meu anel de formatura, no vestido dos anos 90 que não quis doar, nas bolsas que eram suas e minha irmã usa, no frasco de perfume que guardei.

Mas mesmo assim, eu sinto que estou perdendo mais uma coisa.

Diferente do post escrito em 2022, estou cercada de barulhos, reconhecendo os novos sentimentos que surgiram – não só do luto, mas da vida em si – e sem a Chanel, mas com um gatinho filhote correndo pela casa e tirando meu juízo de uma forma boa. Porém, preciso ser honesta comigo e com o leitor. Apesar das muitas perdas, também tive muitos ganhos. 

Os anos de luto me amadureceram, me deixaram mais forte, mais empática, mais sensível, mais reflexiva. E hoje, falar da perda não é uma dor dilacerante, pois compreendi que falar da morte, da ausência e das emoções que me cercam, é cura para o meu coração e por isso continuo aqui me abrindo.

Esse post faz parte da missão do BEDA 2026 — Ecos do Passado: revivendo uma postagem antiga para falar o que mudou de lá para cá.

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é culpa das unhas

#desabafo: Alguns poucos anos atrás, por influencia da minha chefe coloquei alongamento de unhas. Não havia muita necessidade porque as minhas crescem bastante, mas como sinto dor, pensei que talvez fosse uma alternativa vantajosa e realmente foi. Após três anos usando minhas unhas naturais e curtas, decidi fazer alongamento com uma nova técnica. E adivinhem? Está sendo um terror a readaptação.

Parece que não sei digitar no celular ou no meu notebook. Estou sempre clicando em letras erradas ou então comendo algumas – uó! Como se não bastasse isso, fui deixar um comentário em um blog e depois de publicado, vi que escrevi opnião ao invés de opinião. Comi uma letra e nada podia fazer, pois não tinha opção de edição ou excluir comentário. Me estressei rapidinho! Não com o blog da pessoa, mas com as unhas, pois até mesmo para desabafar aqui, apaguei várias palavras escritas erradas.

Em alguns posts do BEDA, coloco o link personalizado e um deles só reparei muito tempo depois que comi uma letra e não havia como mudar. Desde então, sempre fico conferindo várias vezes tudo que escrevo – a hipervigilância desnecessária. 

Preciso agendar minha manutenção. Reclamo, reclamo, mas não pretendo tirar – Enfim, a hipocrisia. 

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