Aos 19 anos, fui ao médico fazer uma micro cirurgia para remover um cisto da perna. Foi um processo rápido e indolor, apenas três pontos e a recomendação de não fazer muito esforço. Nem remédio precisei tomar depois de tão banal que era. Mais de uma década depois, quando passo a mão pela cicatriz, sinto um leve incômodo e caso eu aperte, não chega a ser uma dor, mas é algo.
Meu luto é mais ou menos assim. A ferida foi cicatrizada e fechada, mas sempre que passo a mão, sinto não apenas o incômodo da ausência, mas recordo dos momentos de dor e agonia, de cada fase vivida. Com o passar desse anos - são quase cinco agora - percebi que pensar demais é a razão da minha instabilidade.
Pensar no futuro, nas conquistas, na realização dos sonhos sem a presença e celebração da minha mãe, é algo que me atormenta. Saber que o que ela desejava poderá se realizar sem que ela me abrace, me olhe nos olhos e diga "eu sabia que você conseguiria", é devastador! E talvez por eu estar pensando nessas coisas que percebo estar entrando - novamente - na apatia.
Quero escutar as músicas melancólicas da Taylor Swift, assistir aos mesmos filmes e ler meu livro favorito quinze vezes. Quero dormir chorando, me afundar nos vídeos infinitos do TikTok e desperdiçar meu tempo fazendo absolutamente nada.
Quero me agarrar ao desperdício de não aproveitar meus dias e vê-los apenas na cor cinza, como se não houvesse uma promessa a ser cumprida, um último desejo a ser respeitado e uma memória a ser honrada.
Não tenho vontade de trabalhar, de escrever, de socializar, apenas me afundar e afundar e afundar e afundar... mas a verdade é que mesmo quando me sinto quebrada em milhões de pedaços, ainda me levanto um dia após o outro, equilibrando meus pratinhos da vida adulta, sendo o socorro de quem precisa de mim por inteira, sorrindo para os que sorriem e abraçando os que precisam de consolo quanto eu não tenho nenhum.
Sei o que está acontecendo e como todas as outras vezes, sei o que fazer, mas não quero. O problema sempre será pensar demais e isso não sei como não fazer.