QUASE AURORA : luto

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eu, o barulho e os gatos

→ eu, meu silêncio e três gatos

O ano era 2022 e estava vivendo os primeiros meses após a perda de minha mãe. Ainda estava processando muitas coisas e entendendo a dimensão do que é perder alguém que você tanto ama e imagina que terá para o resto da vida. Na época, meu pai e irmã foram visitar nossa família paterna em Minas Gerais e me restou ficar em casa para cuidar dos gatos.

A solidão não foi um problema, afinal, sempre gostei de permanecer quieta no meu canto e precisava daqueles dias sem o cotidiano barulho de uma casa com pessoas. Eu e os gatos entramos em um ritmo tranquilo, era uma nova rotina para as refeições deles e uma cama espaçosa para dormirmos — sempre gostei de dormir no quarto dos meus pais quando eles se ausentavam.

Olhando para aquele passado, percebo que me ajudou muito a assimilar tudo que estava dentro de mim e foi naquela rotina silenciosa que me deparei com uma das maiores e mais difíceis perguntas do luto: o que eu faço com todo o amor que tenho e depositava naquela pessoa? 

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Nós amamos muitas pessoas, mas não somos preparados para perdê-las, pois é uma possibilidade quase inexistente. Então, quando aquilo deixa de existir, esse amor que investíamos dia após dia, depositávamos nossa energia, nosso tempo, cuidado e carinho, fica perdido... E não adianta tentar redirecioná-lo para outro lugar. Será como uma peça de um quebra-cabeça tentando se encaixar em outro jogo, simplesmente não funciona.

Na época, quando levantei esse questionamento, não encontrei respostas e ainda não as tenho. Em muitos momentos me sinto vagando por um labirinto, tentando encontrar a saída que me levará a porta da salvação, mas confesso que não acho que exista tal porta. Continuo amando minha mãe de maneira extrema! Mas por não tê-la mais em corpo físico, em presença física, não sei o que fazer com todo o sentimento.

E para além disso, de lá pra cá, vim numa sequência de perdas. Dois anos após o falecimento de mãe, perdi a Chanel, minha primeira gata e que foi meu suporte psicológico durante o luto. Ainda lembro como se fosse ontem, de quando três dias depois que mãe faleceu, enquanto eu chorava dolorosamente para todos os vizinhos ouvirem e ninguém conseguia me socorrer, ela subiu na cama, agarrou minha mão e ficou lambendo até que eu me acalmasse. Quando parei de gritar, ela deitou a cabeça na minha mão e ficou ali até que eu pegasse no sono. É uma das lembranças mais bonitas e importantes que tenho.

E perder a Chanel foi muito difícil, pois ela faleceu em circunstâncias de saúde extremamente similares de mãe. Nas duas perdas, eu estava com elas vendo a vida deixar seus olhos. E isso deixou marcas profundas em mim, não tenho como fingir que a morte não roubou algo bonito e puro do meu ser.

Agora, estou perdendo a casa. Uma das poucas coisas físicas que veio dela. Apesar de já ter assinado os contratos de venda/compra, ainda estamos aqui há alguns meses e nesse período não consegui preparar meu psicológico para quando realmente tivermos que empacotar nossas coisas. 

Esse apartamento sempre foi o sonho da minha mãe e por dez anos ela o usufruiu da melhor forma possível. Aproveitou o privilégio de morar de frente para o mar, de ver o sol nascer na varanda, de receber amigos, comemorar aniversários, ver a Chanel ganhar sua última ninhada antes da castração, dançou na virada de ano pela sala com meu pai, fez inúmeras receitas que foram passadas pela geração anterior, chorou olhando fotos antigas, brigou comigo e com minha irmã, deu inúmeras risadas.

E eu estou agarrada a essas memórias, vivendo um luto esticado.

Sei que minha mãe não está nas coisas materiais, mas naquilo que traça, ferrugem e maresia não podem corroer. Ela está nas minhas memórias, nas histórias, nas postagens desse blog, nas fotografias, no meu anel de formatura, no vestido dos anos 90 que não quis doar, nas bolsas que eram suas e minha irmã usa, no frasco de perfume que guardei.

Mas mesmo assim, eu sinto que estou perdendo mais uma coisa.

Diferente do post escrito em 2022, estou cercada de barulhos, reconhecendo os novos sentimentos que surgiram – não só do luto, mas da vida em si – e sem a Chanel, mas com um gatinho filhote correndo pela casa e tirando meu juízo de uma forma boa. Porém, preciso ser honesta comigo e com o leitor. Apesar das muitas perdas, também tive muitos ganhos. 

Os anos de luto me amadureceram, me deixaram mais forte, mais empática, mais sensível, mais reflexiva. E hoje, falar da perda não é uma dor dilacerante, pois compreendi que falar da morte, da ausência e das emoções que me cercam, é cura para o meu coração e por isso continuo aqui me abrindo.

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Esse post faz parte da missão do BEDA 2026 — Ecos do Passado: revivendo uma postagem antiga para falar o que mudou de lá para cá.

| 📜 Registro da Biblioteca Eterna





o som que não quero esquecer

As paredes da Biblioteca Eterna guardam não apenas conhecimento, mas muitas memórias. Aqui, passaram sábios e tolos, heróis e derrotados, andarilhos e os que estavam em busca de uma morada. Cada um desses, com suas poucas ou muitas bagagens e histórias para contar. Há lembranças felizes e outras difíceis, carregadas de lágrimas. E em 2021, os quadros nas paredes foram cobertos, os corredores ficaram vazios e as velas foram apagadas. Um silêncio tomou posse para que todos os que já passaram e trabalham por aqui vivessem o luto de uma perda muito importante. 

Nossa Guardiã da Biblioteca, conhecida também como Guardiã da Alegria, partiu aos 55 anos de vida. Ela, que sempre foi uma admiradora da vida, deu seu último suspiro em um agosto. Desceu à sepultura com uma fina chuva caindo sob a terra e deixando todos os seus amigos tristes pela partida.

Apesar do trabalho de Guardiã não ser o mais difícil, ela passou por muitas lutas e viveu inúmeras aventuras fora dessas portas. Atravessou o Grande Deserto, enfrentou as Águas Sombrias, desvendou a Floresta do Encantamento, caminhou por incontáveis caminhos deste Reino, e voltou de cada lugar mais forte, com companheiros viajantes e muitos objetos mágicos. Todos estes, estão pelos corredores da Biblioteca.

O seu grande ensinamento ao longo dos anos que cuidou deste lugar foi: viva a vida e ame.

E mesmo com todos os momentos bons guardados em nossos corações, há um que atormenta os meus dias: o medo de esquecer o som da voz dela carregada de seus ensinamentos, correções, e sua risada que tinha o poder de iluminar a mais densa escuridão.

Uma vez, sendo convocada para levar palavras de sabedoria para alguém que também tinha medo de esquecer, falei que, infelizmente, é normal o som ir desaparecendo pouco a pouco... Isso porque não estamos mais ouvindo constantemente aquela voz. Mas eu sei, que láaa no fundo, com um pouco de esforço e talvez alguns vídeos guardados no drive, a gente se recorda.

E esse medo é normal. Ele faz parte do amor que continua acumulado, sem saber pra onde ir.

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| 📜 Registro da Biblioteca Eterna





tudo que há para se sentir

Nasci na primeira semana de maio e logo na segunda vem o dia das mães. Desde que ela partiu, meus aniversários nunca mais foram os mesmos porque eu sempre penso que logo ali ela seria celebrada por ser uma ótima mãe, uma ótima amiga, uma ótima conselheira, uma ótima ouvinte. Apesar das palavras bonitas de outras pessoas, os desejos para ficar bem e as inúmeras tentativas de não pensar tanto sobre isso ou focar em ressignificar o dia que sempre amei, fazer aniversário ainda tem todo esse peso cinco anos depois. E eu não me forço a nada porque sei que preciso sentir tudo que há para se sentir.

quando o dia chegar e eu fizer 32, pra ela sempre terei 27. os três meses que vieram depois, eu sei que lhe aproveitei ao máximo assim como todos os anos antes.






o problema é pensar

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Aos 19 anos, fui ao médico fazer uma micro cirurgia para remover um cisto da perna. Foi um processo rápido e indolor, apenas três pontos e a recomendação de não fazer muito esforço. Nem remédio precisei tomar depois de tão banal que era. Mais de uma década depois, quando passo a mão pela cicatriz, sinto um leve incômodo e caso eu aperte, não chega a ser uma dor, mas é algo.

Meu luto é mais ou menos assim. A ferida foi cicatrizada e fechada, mas sempre que passo a mão, sinto não apenas o incômodo da ausência, mas recordo dos momentos de dor e agonia, de cada fase vivida. Com o passar desse anos - são quase cinco agora - percebi que pensar demais é a razão da minha instabilidade.

Pensar no futuro, nas conquistas, na realização dos sonhos sem a presença e celebração da minha mãe, é algo que me atormenta. Saber que o que ela desejava poderá se realizar sem que ela me abrace, me olhe nos olhos e diga "eu sabia que você conseguiria", é devastador! E talvez por eu estar pensando nessas coisas que percebo estar entrando - novamente - na apatia.

Quero escutar as músicas melancólicas da Taylor Swift, assistir aos mesmos filmes e ler meu livro favorito quinze vezes. Quero dormir chorando, me afundar nos vídeos infinitos do TikTok e desperdiçar meu tempo fazendo absolutamente nada. 

Quero me agarrar ao desperdício de não aproveitar meus dias e vê-los apenas na cor cinza, como se não houvesse uma promessa a ser cumprida, um último desejo a ser respeitado e uma memória a ser honrada.

Não tenho vontade de trabalhar, de escrever, de socializar, apenas me afundar e afundar e afundar e afundar... mas a verdade é que mesmo quando me sinto quebrada em milhões de pedaços, ainda me levanto um dia após o outro, equilibrando meus pratinhos da vida adulta, sendo o socorro de quem precisa de mim por inteira, sorrindo para os que sorriem e abraçando os que precisam de consolo quanto eu não tenho nenhum.

Sei o que está acontecendo e como todas as outras vezes, sei o que fazer, mas não quero. O problema sempre será pensar demais e isso não sei como não fazer.





PRIMEIRO ANIVERSÁRIO SEM MINHA MÃE

Como vocês sabem (ou não), minha mãe faleceu no dia 11 de agosto de 2021. De lá pra cá, tenho vivido os altos e baixos do luto. Alguns momentos são fáceis e outros dolorosos demais, como por exemplo, meu aniversário.

Sempre gostei de celebrar e isso veio da minha mãe que sempre amou uma festa. Até mesmo quando não tínhamos boas condições financeiras, ela fazia o possível para não passar nossos aniversários em branco e dava um jeito de nos presentear com algo. Quando eu não queria fazer absolutamente nada, o que acontecia era só um bolinho em família, mas jamais existiu não fazer nada.

Esse foi meu primeiro aniversário sem ela e o primeiro que disse que não faria absolutamente nada. Primeiro porque estava desanimada e segundo porque estava com pagamento atrasado - consequentemente, sem dinheiro. Mas Deus é bom e um Pai zeloso.

Na noite anterior, estava voltando para casa com meu pai e quando entrei, lá estava uma amiga com bolinho e salgadinhos gritando "SURPRESA!" junto com minha irmã. Chorei e choraria mais se ela não tivesse me pedido para parar. Celebramos, compartilhei algumas frustrações de trabalho, assistimos um filme e às 6h da manhã ela foi pra casa.

Na quinta-feira, 05/05, meu dia perfeito, resolvi pintar o cabelo de rosa. Em seguida, fui almoçar com meu pai, irmã e uma amiga querida que quis me pagar um almoço de comemoração. Enquanto estava no restaurante, recebi a mensagem de um amigo me chamando para tomar café da tarde com a família e à noite, célula com bolinho para mim e Nathália (que fez aniversário no dia seguinte).

Ganhei presente de alguém que eu nem esperava, de amigos que só conheço virtualmente e muito, muito amor. Recebi palavras de força, palavras que reforçavam quem eu sou como pessoa e quem eu sou em Deus. Isso me ajudou a seguir de pé naquele dia, porque foi muito doloroso celebrar sem ter minha melhor pessoa do meu lado. 

Foi mais doloroso ainda, três dias depois, não ter mãe para dizer "feliz dia das mães" e amanhã - mais dias depois, vem a data da contagem de falecimento (9 meses). Pro resto da vida meu mês será assim. Pro resto da vida terei que aprender a lidar com o turbilhão de emoções que sei que viverei.

Estou vivendo um dia de cada vez - os planos nunca são a longo prazo - e faço o que ela me fez prometer, viver a vida buscando motivos para amá-la. 

Tem minivlog lá no canal mostrando um pouquinho do aniversário do meu pai, meus dias e meu aniversário. Sobre o cabelo rosa, falo disso outro dia.





SÃO AS PEQUENAS COISAS

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Eu estava rolando a timeline do Twitter quando me deparei com o seguinte tweet: "O pior dia do luto não vai ser o enterro, nem a missa de sétimo dia, ou a de primeiro aniversário. O pior dia do luto é um dia normal, que você tá seguindo sua vida, e acontece algo besta e você pensa em conta para aquela pessoa e é esmagado pela dor insana da realidade."

A pessoa que escreveu isso não poderia ter descrito o luto de forma mais perfeita. São nas pequenas coisas que me sinto mais esmagada, quando alguém diz que estou ficando cada vez mais parecida com minha mãe, quando observo o mar pela varanda - coisa que ela amava.

Sou esmagada todas as vezes que lavo a louça e talvez seja porque esse era o serviço doméstico que ela mais reclamava que nós demorávamos pra fazer. Sinto o peso do luto quando percebo que nunca mais a terei aqui para reclamar comigo e isso dói de uma maneira que me faz perder o ar e entrar em uma crise de choro.

As vezes o choro é baixinho e outras ensurdecedor. Faz meu corpo inteiro tremer.

São as pequenas coisas que me deixam exaustas. Sinto como se o lugar que ela deixou caiu em meus ombros, mas não é ele todo, apenas uma parte e essa me deixa em extrema ansiedade.

Mas são também as pequenas coisas que me motivam a continuar de pé e procurando o brilho da vida. São as pequenas coisas que me trazem paz.





EU, MEU SILÊNCIO E TRÊS GATOS

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Eu sinto falta de escrever, de colocar os sentimentos pra fora, de falar sobre algumas experiências da vida, de coisas que aprendi, de paixões ou desencantos.

Parece que a minha vida entrou numa certa monotonia e não tenho muito sobre o que refletir, mas então eu me vi sozinha. Eu, meu silêncio e três gatos. Por trinta e cinco dias.

Minha mãe sempre disse que eu deveria fazer da minha mente um lugar agradável para se estar. É um exercício constante. Eu sou melancólica e introspectiva, cada sentimento parece ser grande demais e pesado demais. Eu me fecho e fico no meu mundinho de dor e angústia sem pedir ajuda. Mas tudo que eu fiz nesses dias foi tentar estar em paz comigo mesma.

Eu respirei fundo várias e várias vezes e ficava repetindo em voz alta o que era e o que não era ok ficar remoendo/sentindo. E fiz isso porque como já disse aqui antes, minha mãe morreu. Foi tudo extremamente doloroso e ainda dói profundamente.

Eu não estava apenas sozinha para que meu pai e irmã pudessem viajar. Eu estava sozinha enquanto vivia o luto e passava o primeiro aniversário dela no completo vazio.

Entrei numa rotina tranquila, mas que também me deixou no ócio por muito tempo, afinal, eu acordava extremamente cedo, fazia todas as minhas obrigações e quando a tarde chegava ao fim, estava completamente livre para fazer o que bem entendesse, mas a grande questão era: eu não queria fazer nada.

Zapeava por diversas plataformas e nada me agradava, pulava de vídeo em vídeo, de playlist em playlist, de restaurante em restaurante, de livro em livro... nada me agradava, nada me trazia uma ponta de satisfação e prazer.

Eu estava me sentindo apática demais. Tentando compreender os sentimentos da minha recente dor e do completo silencio que tomava conta da casa.

E não se engane, eu saí algumas vezes, eu vi amigos, mas mesmo assim ainda existia um completo vazio. Um sentimento que não pode ser colocado em palavras, mas que me ajudou a me acomodar em mim mesma, a descobrir coisas que eu sabia que gostava e outras tinha dúvida. Um sentimento que me fez pensar e refletir na vida que estou levando e na que quero ter.

Certamente eu precisava desses dias, precisava dessa rotina e dessa onda de emoções. Para algumas pessoas o silêncio pode ser perturbador, mas para mim, foi reconfortante.

Eu chorei em paz, lamentei, me amei, me permiti e me entendi.

Até me conectei de formas diferentes com meus gatos e escrevi um pouco.

Avaliando o todo, eu percebi que preciso desse isolamento. Ao menos por enquanto.





NÃO ESCREVI PORQUE ELA MORREU

Eu pensei muito sobre o que escreveria aqui e enquanto digito essas palavras, ainda não sei. Há um vazio enorme nos meus dias, na minha mente e no meu coração. Esse vazio não se explica, apenas se sente.

Não é fácil colocar em palavras a dor da morte.

Talvez eu consiga falar sobre isso de uma maneira melhor, mas enquanto esse dia não chega, vou seguindo um dia de cada vez e tentando reconstruir minha vida sem minha mãe. E uma das formas de fazer isso é voltar a escrever no blog que ela tanto me apoiou e incentivou a continuar nas infinitas vezes que pensei em abandonar.

E bom, pra não deixar de compartilhar nada com vocês, deixo aqui o vídeo que publiquei essa semana no canal. Os primeiros dias sem a presença dela aqui e as coisas que fiz.







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