Uma vez, andando por ruas no Centro do Rio de Janeiro na companhia de minha irmã e duas amigas, uma delas comentou algo sobre um prédio e todas nós erguemos a cabeça para o alto e observamos. Foi naquele momento, analisando uma janela em específico, que vi uma história sendo construída ali.
Vislumbrei uma jovem mulher, seus dias exaustivos, uma discussão e a redescoberta de si mesma.
Comentei com a amiga que falou sobro o prédio que comecei a criar uma história na minha cabeça. Ela sorriu e disse "então escreve". E embora eu tenha esboçado apenas a ideia e nunca de fato escrevi sobre aquela mulher dos meus pensamentos, ainda lembro com nitidez as cores que escolhi para as paredes de sua sala, a planta que fica logo na entrada, a música que ela dança pela sala vestindo um pijama fofo e confortável. Sei a cor e o tamanho de seus cabelos, como a pele fica dourada na luz do sol, como ela afunda mas também se levanta.
Isso é só um exemplo das muitas histórias que chegam de maneira rápida e passam a habitar minha mente. Não ouso dizer que serão boas histórias, não há como afirmar isso porque nunca as escrevi por mais de poucas páginas, mas fico pensando nelas, nas ideias, nos personagens e seus dilemas, nas paisagens que os cercam.
As vezes penso que é um pouco cruel deixá-los por tanto tempo parados, à beira de uma quase existência... mas coloquei na minha cabeça que SEMA deve ser o primeiro que verá a luz do sol. Foi por causa deste livro que comecei minha pós-graduação em escrita criativa. Só que de vez em quando penso nos outros que estão na fila dos meus dedos e uma página em branco — e o pior é que de ano em ano a fila cresce.
Não que existam muitos, mas a fila cresce porque os personagens encontram seus pares e formam grupos na fila. Não basta apenas o principal querer encontrar seus capítulos, todo o resto deseja se juntar a ele e ter sua voz ouvida.
Mas confesso que mesmo que eles se amontoem e fiquem abrindo abas na minha cabeça, quando um novo surge, é uma sensação muito gostosinha e avassaladora. Estou ali, caminhando pela orla, olhando uma vitrine, tomando café em uma padaria ou escutando uma música e então... é como um borrão, como um trailer de filme! Os personagens, falas e sentimentos começam a aparecer.
Eu me agarro nessa beleza sutil e ligeira, pego meu bloco de notas do celular ou o primeiro caderno que estiver por perto e anoto tudo que me foi revelado.
Vira e mexe me pego olhando essas anotações.
Talvez, digo isso com uma leve tristeza, seja mais gostoso saber que eles moram em mim do que de fato escrever suas vidas. São o meu segredo, as minhas pessoas que se revelam exclusivamente para os meus pensamentos e eu gosto disso. Parte de mim não quer dividi-los, mas um dia vou. Sei que vou.







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